10.02.2017

A carta






(sim    estou bem    meu amor
obrigada por perguntar)


e é para ti que digo que
mascando flores 
e com uma força descomunal
o vento norte é talvez o que
mais me empurra 
para os flancos austrais
dos amores silvestres
onde ararinhas azuis de esperança
habitam os ramos mais altos
dos pensamentos inofensivos

é nesse lugar que as vezes
teço palavras como quem
roga baixinho pelos ardores do sol
sobre o silêncio inesgotável do peito
que a tudo abarca
sem mãos que o libertem

é nesse lugar que estou
quando regresso sem nunca ter ido


Salete


9.12.2017

Quando





quando à sombra
das mangueiras de minha infância
eu regresso
não penso na inocência perdida
a espera que a tempestade cesse
penso nos espaços abertos
na vibração do sangue
que pulsa gota a gota eternidades
no azul inacabado do meu olhar
no aroma das frutas maduras que caem
com a agitada aragem
dos dias encobertos
e assim
com a boca cheia
as cores surgem tão imperturbáveis
que julgo ser doce o caminho
mesmo quando feito de pedras


Salete



9.02.2017

O paladar das rosas antigas








o olfato
é mesmo o paladar
das rosas antigas que
nunca se prescreve

do ritmo
incansável das marés
haverá sempre
um outro olhar exausto
farejando uma novidade

mas distintos como são
dirão que das palavras
irrompem asas absurdas
nos olhos sem norte
e que um arbusto descrito
no clamor de um outro sol
é uma visagem sob o leito
onde adormecem os sonhos

e assim continuam
dia após dia
a inalar o caminho vivo
de se render o dia
com anjos desacreditados
nas mãos

Salete


Escrever dói









pensar 
é convocar
a agitação dos pássaros
para desobstruir
os limites da própria voz

escrever dói

nos movimentos sinuosos
das mãos malabaristas 
que seguram resolutas a corda
precisa das ideias  
permanece o gosto salino
das amarras

e no coração
e por todos os lados 
pasmam figuras inofensivas
a varrer as cinzas da memória 
que desdizendo a própria sorte
nem sempre vem depois
nos salvar 

escrever dói



Salete




8.29.2017

Com um arco iris improvisado no olhar








nenhuma estação mudou
só o vento atravessou esta porta
mal fechada onde
veio mover o dia 
com um arco iris improvisado no olhar

sobre mim e a parte de mim
ainda paira o riso anguloso 
como solo impreciso
onde fundem outros passos

mas ainda assim 
vibrante como labareda 
é neste corpo febril que agora     
oscila o sol

Salete