12.15.2017

A transparência de uma flor









entre a
água desprovida 
de peixes e quimeras
e a luz que me cega  
me apetece dar formas 
ao silêncio cúmplice
das magnólias
na solidão da noite

porque
um verbete caído
das minhas mãos 
será sempre as asas
de um anjo evocando
a transparência
de uma flor


Salete


10.24.2017

Com lábios acesos







com lábios acesos
venho pelos caminhos da primavera 
beijar a nudez irrequieta 
dos teus gestos luminosos

o teu hálito 
é a sede que eu bebo
quando rio
te deságuas inteiro
num mar vivo
de ressacas amenas 

o teu corpo é seara
onde apazíguo estrelas
uma a uma
todos os nós dos dedos 
sem véus ou ameias
de mãos buliçosas
presas aos teus cabelos


Salete


10.02.2017

A carta






(sim    estou bem    meu amor
obrigada por perguntar)


e é para ti que digo que
mascando flores 
e com uma força descomunal
o vento norte é talvez o que
mais me empurra 
para os flancos austrais
dos amores silvestres
onde ararinhas azuis de esperança
habitam os ramos mais altos
dos pensamentos inofensivos

é nesse lugar que as vezes
teço palavras como quem
roga baixinho pelos ardores do sol
sobre o silêncio inesgotável do peito
que a tudo abarca
sem mãos que o libertem

é nesse lugar que estou
quando regresso sem nunca ter ido


Salete


9.12.2017

Quando





quando à sombra
das mangueiras de minha infância
eu regresso
não penso na inocência perdida
a espera que a tempestade cesse
penso nos espaços abertos
na vibração do sangue
que pulsa gota a gota eternidades
no azul inacabado do meu olhar
no aroma das frutas maduras que caem
com a agitada aragem
dos dias encobertos
e assim
com a boca cheia
as cores surgem tão imperturbáveis
que julgo ser doce o caminho
mesmo quando feito de pedras


Salete



9.02.2017

O paladar das rosas antigas








o olfato
é mesmo o paladar
das rosas antigas que
nunca se prescreve

do ritmo
incansável das marés
haverá sempre
um outro olhar exausto
farejando uma novidade

mas distintos como são
dirão que das palavras
irrompem asas absurdas
nos olhos sem norte
e que um arbusto descrito
no clamor de um outro sol
é uma visagem sob o leito
onde adormecem os sonhos

e assim continuam
dia após dia
a inalar o caminho vivo
de se render o dia
com anjos desacreditados
nas mãos

Salete