1.18.2018

As pedras sérias do caminho










agarram -se a mim 
as pedras sérias do caminho
pois basta um olhar
para que se desmontem inteiras

querem -se em mil pedaços
grãos de areia felizes seguindo o 
próprio destino

mas 
testemunhas dos meus olhos
de avalanches
conservai os meus pés intactos
da comédia dos seus deslizes
quando por elas passarem

que eu pertenço a outra
tribo

pertenço a outra tribo


Salete




1.05.2018

Devaneios











não são âncoras
os meus dedos
nem é meu esse 
par de asas

nos devaneios 
do olhar descoberto 
ao primeiro sinal do dia
convém dizer que
as mãos não se tocam

se liquidificam na distância
ao mínimo tremor de pele
que principia
na correnteza do sangue
e nas costelas da lucidez
se desfazem

assim 
como se fosse chão
a pedra mais dura

assim
como se fosse chuva
a lágrima furtiva 
que cai
sobre a inabalável
pulsação da vida



salete



12.15.2017

A transparência de uma flor









entre a
água desprovida 
de peixes e quimeras
e a luz que me cega  
me apetece dar formas 
ao silêncio cúmplice
das magnólias
na solidão da noite

porque
um verbete caído
das minhas mãos 
será sempre as asas
de um anjo evocando
a transparência
de uma flor


Salete


10.24.2017

Com lábios acesos







com lábios acesos
venho pelos caminhos da primavera 
beijar a nudez irrequieta 
dos teus gestos luminosos

o teu hálito 
é a sede que eu bebo
quando rio
te deságuas inteiro
num mar vivo
de ressacas amenas 

o teu corpo é seara
onde apazíguo estrelas
uma a uma
todos os nós dos dedos 
sem véus ou ameias
de mãos buliçosas
presas aos teus cabelos


Salete


10.02.2017

A carta






(sim    estou bem    meu amor
obrigada por perguntar)


e é para ti que digo que
mascando flores 
e com uma força descomunal
o vento norte é talvez o que
mais me empurra 
para os flancos austrais
dos amores silvestres
onde ararinhas azuis de esperança
habitam os ramos mais altos
dos pensamentos inofensivos

é nesse lugar que as vezes
teço palavras como quem
roga baixinho pelos ardores do sol
sobre o silêncio inesgotável do peito
que a tudo abarca
sem mãos que o libertem

é nesse lugar que estou
quando regresso sem nunca ter ido


Salete