9.12.2017

Quando





quando à sombra
das mangueiras de minha infância
eu regresso
não penso na inocência perdida
a espera que a tempestade cesse
penso nos espaços abertos
na vibração do sangue
que pulsa gota a gota eternidades
no azul inacabado do meu olhar
no aroma das frutas maduras que caem
com a agitada aragem
dos dias encobertos
e assim
com a boca cheia
as cores surgem tão imperturbáveis
que julgo ser doce o caminho
mesmo quando feito de pedras


Salete



9.02.2017

O paladar das rosas antigas








o olfato
é mesmo o paladar
das rosas antigas que
nunca se prescreve

do ritmo
incansável das marés
haverá sempre
um outro olhar exausto
farejando uma novidade

mas distintos como são
dirão que das palavras
irrompem asas absurdas
nos olhos sem norte
e que um arbusto descrito
no clamor de um outro sol
é uma visagem sob o leito
onde adormecem os sonhos

e assim continuam
dia após dia
a inalar o caminho vivo
de se render o dia
com anjos desacreditados
nas mãos

Salete


Escrever dói









pensar 
é convocar
a agitação dos pássaros
para desobstruir
os limites da própria voz

escrever dói

nos movimentos sinuosos
das mãos malabaristas 
que seguram resolutas a corda
precisa das ideias  
permanece o gosto salino
das amarras

e no coração
e por todos os lados 
pasmam figuras inofensivas
a varrer as cinzas da memória 
que desdizendo a própria sorte
nem sempre vem depois
nos salvar 

escrever dói



Salete




8.29.2017

Com um arco iris improvisado no olhar








nenhuma estação mudou
só o vento atravessou esta porta
mal fechada onde
veio mover o dia 
com um arco iris improvisado no olhar

sobre mim e a parte de mim
ainda paira o riso anguloso 
como solo impreciso
onde fundem outros passos

mas ainda assim 
vibrante como labareda 
é neste corpo febril que agora     
oscila o sol

Salete


8.28.2017

À deriva




a garoa fina
deixava frestas para que o
frio entrasse até os ossos
mas ainda era cedo para
vestirmos nossas fantasias
de pirilampos acanhados

pegamos a estrada a deriva
de um qualquer pensamento
a se desbotar com a umidade
e tão longe e tão perto de casa
avistamos o princípio
de uma estada encantada

faltou mesmo muito pouco
para que nossos corações
ficassem para sempre
naquelas encostas
de nuvens baixas


=Pólo Cuesta=

(imagens feitas pelo celular)


8.10.2017

Amanhã







amanhã
quando os anjos vierem
abrir o meu peito e dele
saltar um sismo de indagações
refutarei a ideia de acender
uma fogueira de promessas
ao coração

do cimo e do almejado fumo
dessas inquietações
basta que eu respire sem dor
mais uma e outra vez


Salete



7.23.2017

Anda comigo







anda comigo um pássaro que descerra
portas e janelas
à procura de um coração de asas

não sei se o que digo o morde
por dentro ou por fora
nem se o vento que por aqui passa
é o que passa lá
mas anda sempre comigo
mesmo quando
no mais equivocado dos verbos
deixo cair todos os gestos

parece apego
mas é só falésia de arrebatamento
que um dia se esvai como se esvai
toda e qualquer ave que se rende
ao lado mais belo do mar

e então estarei só


Salete


6.30.2017

À luz mínima








à luz mínima
éramos um caudal em movimento
a absorver
a silhueta invertebrada do dia
como se fôssemos
o último gole de vinho
e no entanto
a garganta sempre em estio
a suscitar a dúvida
a quem nela depositasse
um coração sem recusas
um quase deleite no
quotidiano rumo a uma
constelação de estrelas
uma noite sem planície
repara
éramos bons
em buscar dádivas
onde ninguém mais as via









6.06.2017

O fio da memória







nem sempre os dias
foram essa solidão de ilhas
acorrentando ao coração
açucenas e estrelas
ante a violação
do mar
mas eis -me outra vez
a reconstruir
paredes e arestas
onde me caiba
a ternura dos gestos
ou
o contraponto de uma
história que valha
o fio da memória


Salete

5.02.2017

Das rosas









das rosas sofridas
que dizem sobreviver
a qualquer abismo
não sei dos espinhos

porque do solo onde se afundam

ingrimes e definitivas
avisto apenas os vazios que lhes
crescem a volta das suas cicatrizes

e qual ismos atados a corcéis fugidios

não chegam a refletir
escapam -me ante a superfície onde me
reconheço e por isso
nem sei se existem





4.25.2017

.






sabe mamãe
não acobertei o princípio
do novo mundo;
era a noite das profundas
depressões e as cores 
prometiam alento ao
rude estofo

receava a sede e o frio
e um certo vento da ironia
como propulsão 
mas andava lento e no final
das contas o sono era bom

acordei anos depois
com uma libra  
de procela no olhar
um naco de pão nas mãos

sempre precisei 
de pouco mamãe
e isso foi o que me 
bastou


4.17.2017

.







no arpoar das excessivas viagens
é quando mais regresso
aos meus olhos de céu
para que me multipliquem
os passos

sempre imigrante
sempre absorta
em líquida esmeralda
num desacerto de mar
onde crepitam
fogo terra ar
chego a porta

mas jamais terei nas mãos
um bom bordão ou a
contrapartida de uma borrasca
para atravessá -la


4.07.2017

.






talvez eu seja essa mesma
a converter um corpo alto
num verso pequeno
de palavras minúsculas
tão mínimas e miúdas
que se não for o acaso
as lhes emaranhar 
os ramos finos
um dia serão apenas
um sopro
uma penugem
uma escotilha solta no tempo
uma ranhura
no sorriso breve
e furtivo
de quem viveu
para ser semente

portanto
não são bem os verbetes
que se alastram
nas cristaleiras dos pensamentos
o que entorna o vinho a minha sede
mas a cadência luminosa
com a qual vou
à nascente