terça-feira, 25 de abril de 2017

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sabe mamãe
não acobertei o princípio
do novo mundo;
era a noite das profundas
depressões e as cores 
prometiam alento ao
rude estofo

receava a sede e o frio
e um certo vento da ironia
como propulsão 
mas andava lento e no final
das contas o sono era bom

acordei anos depois
com uma libra  
de procela no olhar
um naco de pão nas mãos

sempre precisei 
de pouco mamãe
e isso foi o que me 
bastou


segunda-feira, 17 de abril de 2017

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no arpoar das excessivas viagens
é quando mais regresso
aos meus olhos de céu
para que me multipliquem
os passos

sempre imigrante
sempre absorta
em líquida esmeralda
num desacerto de mar
onde crepitam
fogo terra ar
chego a porta

mas jamais terei nas mãos
um bom bordão ou a
contrapartida de uma borrasca
para atravessá -la


sexta-feira, 7 de abril de 2017

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talvez eu seja essa mesma
a converter um corpo alto
num verso pequeno
de palavras minúsculas
tão mínimas e miúdas
que se não for o acaso
as lhes emaranhar 
os ramos finos
um dia serão apenas
um sopro
uma penugem
uma escotilha solta no tempo
uma ranhura
no sorriso breve
e furtivo
de quem viveu
para ser semente

portanto
não são bem os verbetes
que se alastram
nas cristaleiras dos pensamentos
o que entorna o vinho a minha sede
mas a cadência luminosa
com a qual vou
à nascente